Wonderland Musical: Notas sobre as Representações da
Música Brasileira na Mídia Americana
Maria Elizabeth Lucas
Introdução
A literatura anglo-americana sobre a produção cultural
contemporânea, sobretudo aquela dos "Cultural Studies"
contribuiu no último decênio significativamente para a
tematização dos processos de transnacionalização
da cultura, produzindo uma quantidade notável de estudos de caso,
inclusive no campo da música popular, esquadrinhando seus processos
de criação e circulação espacial/ideológica/tecnológica.
Refiro-me a esta literatura pelo fato dela ser responsável pela
introdução de uma série de propostas interpretativas
no campo da música popular, tangenciando com o tema deste colóquio
e com a proposta desta comunicação.
Conceitos como os de globalização, transnacionalismo,
diáspora, desterritorialização, alteridades, diferença,
entraram por vias diversas no discurso acadêmico como diacríticos
do realinhamento de forças sociais em uma nova ordem mundial
(capitalismo tardio, novo capitalismo global, condição
pós-moderna), em que a fixidez de noções como nação-estado,
território, tradição, fronteiras nacionais, passaram
a ser questionadas em suas bases ideológicas. Propostas de uma
teoria geral dos processos culturais globalizadores (Appadurai 1990)
colocaram em circulação imagens de "dissociações",
"fluxos", "justaposições" entre o
econômico, o cultural e o político desafiando as imagens
de estabilidade, sistematicidade, continuidade favorecidas pelos paradigmas
científicos da modernidade. A globalização da cultura
sugere forças sociais em estado permanente de tensão e
negociação, em que fatores sobredeterminantes não
podem mais ser adscritos isoladamente (a primazia do econômico,
ou do político, ou do cultural).
Para o etnomusicólogo, cliente da interdisciplinariedade, eterno
mediador entre as tecnicalidades do texto e as suas múltiplas
contextualizações na prática social, as várias
tentativas de confrontar a realidade empírica da diversidade
musical, a visibilidade do fenômeno com a sua teorização
apontam mais para uma cartografia de questões e problemas do
que propriamente modelos teóricos acabados. No entanto, a Etnomusicologia
não pode perder de vista a tarefa intelectual de dialogar no
espaço da interdisciplinariedade, retomando reflexivamente a
experiência de pesquisa acumulada em décadas de trabalho
e contribuir para problematizar o musical no social e vice-versa.
Seguindo o argumento de Appadurai (1990) sobre as dissociações
manifestas nos fluxos globais do capitalismo deste fim de século,
definidas como fluxos de paisagens étnicas, tecnológicas,
financeiras, ideológicas, comunicacionais (mediascapes), ou seja,
processos sociais cuja forma é marcada pela fluidez com que se
combinam elementos de natureza histórica, linguística,
institucional e situacional dos distintos agentes sociais que vivenciam
e constituem estas paisagens, tenciono apontar algumas tendências
que entrecruzam a produção musical brasileira contemporânea
e a sua interface global. Neste sentido, em razão das fontes
empíricas deste trabalho, saliento a efetividade do conceito
de "mediascapes" criado por Appadurai, para introduzir a questão
das representações sobre a música brasileira (MB)
na mídia americana.
As "mediascapes" referem-se tanto a disseminação
em escala mundial das possibilidades de produzir informações
por meios eletrônicos, quanto das representações
sociais criadas por estes meios, provendo um imenso e complexo repertório
de imagens, narrativas e paisagens étnicas reelaboradas heteroclitamente
por audiências mundo afora. Conforme a definição
de Appadurai:
Mediascapes whether produced by private or state interests, tend to
be image-centered, narrative-based accounts of strips of reality, and
what they offer to those who experience and transform them is a series
of elements (such as characters, plots and textual forms) out of which
scripts can be formed of imagined lives, their own as well those of
others living in other places (199O: 9 ).
Estes textos, desdobram-se em outros, criando verdadeiros conglomerados
metafóricos para novas narrativas pelas quais os agentes sociais
mediam a sua relação com a diferença e recriam
o seu próprio setting cultural. Não é difícil
acompanhar na proposta das "mediascapes" de Appadurai muitas
das questões que foram e continuam a ser levantadas a respeito
das "soundscapes" contemporâneas (que tanto podem ser
entendidas através de sua confluência nas mediascapes,
como autonomamente), tais como a world music/world beat (Goodwin 1990,
Feld 1994), as diásporas musicais ( Gilroy 1993, Lipsitz 1994),
ou que futuramente terão de ser colocadas para os zines musicais
em franca expansão nas redes eletrônicas.
Ao focalizar as representações acerca da MB (no sentido
de categorias sociais de percepção e classificação)
(1) circulantes na mídia americana (2) , quando da emergência
de uma nova Brazilian wave nos EUA em meados da década passada,
quero aludir à complexa teia de relações possível
de ser traçada nestas narrativas quanto às noções
de musicalidade, etnicidade, identidade nacional e globalização.
*****
A biografia da MB é reconstituída na mídia americana
segundo a memória das waves (3) causadas pela presença
de intérpretes e gêneros da MB no mercado do showbiz (cf.
relatos em Shoshkes 1983; McGowan 1987; Margolis 1989; Gomez 1989; Santoro
1991) ; assim, a memória primeva registra as performances de
Carmen Miranda em Hollywood nos anos 40, passando pelos encontros entre
bossa-novistas e jazzistas no começo dos anos 60 em NYC, e ultimamente
como parte do fenômeno de segmentação étnica
do mercado pop musical .
A visibilidade atual da MB nos EUA pode ser empiricamente constatada
pelo crescimento vertiginoso de CDs de intérpretes brasileiros
lançados no mercado americano nos últimos 8 anos; na sua
constante menção em vários "media"; nas
colaborações ao vivo e em gravações entre
intérpretes brasileiros e americanos; no circuito dos international
acts por cidades americanas de nomes como Djavan, Milton Nascimento,
Caetano Veloso, Gilberto Gil, Ivan Lins, o grupo Olodum. Há ainda
que mencionar as inúmeras bandas musicais, batucadas, conjuntos
de Choro formados por brasileiros residentes nos EUA, de variados níveis
profissionais, que além de preencherem o circuito regular da
live music em várias localidades, também ensinam "ritmos
e instrumentos brasileiros". Estes grupos podem ser encontrados
desde os grandes centros urbanos da costa leste e oeste, até
nas pequenas cidades universitárias interioranas.
Por outro lado, estes indices não correspondem simplemente a
uma resposta espontânea a um novo interesse pela MB. Há
razões significativas mescladas nesta nova onda que a intersectam
com a globalização da cultura. Ela é inseparável
de processos como o debate sobre multiculturalismo e tolerância
étnica na sociedade americana; a visibilidade das minorias Hispanic
e sobretudo dos African-Americans fazendo com que expressões
musicais como Funk, Rap, Soul, Blues, e outros matizes do Pan-africanismo
musical perpassem tanto a ordem do mercado pop como a das instituições
acadêmicas, formando um contexto sensível para a incorporação
das alteridades bem ao modo da democracia representativa americana:
em um espectro ideológico de arco-íris há lugar
tanto para a discriminação racial, quanto adesão
à cultura estética do outro (4). Ainda nesta onda há
que considerar o fluxo crescente de imigrantes brasileiros para os EUA
a partir de meados da década de 80, formando atualmente comunidades
visíveis em torno de cidades como NYC, Boston, Houston ou San
Francisco, totalizando uma população estimada entre 350.000-400.000
brasileiros. Esta população de migrantes sustenta uma
demanda por coisas brasileiras ( notadamente música e produtos
alimentícios) significativa não tanto em termos quantitativos
(5), mas pela distinção produzida pela "diferença"
de estrangeiridade dentre tantos outros em condição semelhante.
Ainda está por ser etnografada esta via de penetração
e recontextualização da MB nos EUA.(6).
Os sistemas discursivos sobre a música, aqueles enunciados por
compositores, intérpretes, aficcionados, críticos, jornalistas,
acadêmicos circulam em zonas de alta competitividade quanto a
sua legitimação, podendo opor-se, alinhar-se ou sobrepor-se
dependendo do seu contexto de referência. Tal dialética
das múltiplas representações do fazer musical só
pode ser inteligível numa relação cruzada com as
práticas sociais nas quais são simultaneamente estruturadas
e estruturadoras. Neste sentido, a importância do material aqui
selecionado para reflexão reside no seu poder em introduzir fora
do meio acadêmico representações criadoras de fortes
zonas de consenso dada a posição do veículo de
divulgação (revistas e jornais de grande tiragem), a autoridade
investida na figura do crítico (creditado como aquele que é
expert no tema), ou do repórter (creditado como aquele que descreve
com "objetividade" o assunto) aliada aos recursos estilísticos
usados nestas narrativas, dos quais os mais eloqüentes são
a intensificação do exotismo via metáforas de viagem
e turismo (7) (como aliás é uso corrente em toda crônica
da World Music), e o da metonimização, isto é,
a construção da visibilidade do todo por uma sua parte.
Por outro lado, a epistemologia subjacente deste sistema discursivo
revela o seu cunho evolucionista, unilinear ao articular a historicidade
do fenômeno com uma sucessão de tendências e estilos
presos numa cadeia de ações e reações do
presente sobre o passado. No entanto, ao reiterarem insistentemente
as grandes sagas e narrativas míticas das origens do samba, da
bossa nova ou da presença da Africa na música baiana,
estes discursos não se identificam simplesmente como espécimens
derivadas do senso comum. Voltarei a este ponto em breve.
Aliada a uma positividade unânime quanto às suas qualidades
estéticas, a MB aparece expressa na versão Ilustrada/Romântica
do paraíso, tanto seja na linguagem jornalística mais
intelectualizada, quanto naquela de happy hour ou de travel guide; a
fórmula poética da sedução sem limites reatualiza-se
infinitamente em narrativas do tipo "na paisagem luxuriante dos
trópicos o ouvinte a cada momento encontra-se com trilhas sonoras
ricas em melos e ritmos, dominadores de corpo e alma".
Uma leitura atenta do discurso que vem acompanhando o marketing da
MB nos EUA não deixa de revelar o mix de fruição
pessoal, estética socializada e lógica do mercado da pop
culture investidas nas representações da recepção
do exotismo musical organizado segundo as metáforas de corpo/natureza/cultura.
No sistema discursivo dos textos veiculados pela media americana sobre
a MB, o Brasil é traduzido musicalmente pela personificação
do mito do latin lover: o old seducer, que produz uma música
capaz de oferecer exotic aural delights/seductive sounds/spicy melodies
corporificados em sensual rhythms. A rítmica afro-brasileira
é invariavelmente apontada como o elemento étnico-exótico
mais importante da identidade musical brasileira. Neste sentido, são
encontradas referências tanto a uma strong rhythmic foundation
da MB, ao rhythmic wonderland of Brazilian music, aos spicy blends of
African rhythm and European melody, quanto ao fato das novas gerações
de ouvintes estrangeiros estarem descobrindo the seductive sounds of
the land where rhythm is king.
A musicalidade intensa da nação está ainda cifrada
nas metáforas que poderiam ser classificadas de ecológico-tropicais
(domínio da natureza) -- musical paradise/ splendors of Brazilian
music/ deep reserve of musical greatness; ou as do mercantilismo colonial
(domínio da cultura) subjacentes nas crônicas das incursões
ao Brasil de pop stars que retornam para as sua bases metropolitanas
loaded with rhythms, ou nas referências à MB como Brazil's
most visible global export.
Ao enfatizar a "strong musical heritage" da nação,
atribuída ao mix étnico, responsável pela intuição
musical do povo, pela autenticidade folclórica da criação
musical brasileira, este sistema discursivo reproduz em primeiro lugar
a razão do nacionalismo de Estado, principal articulador e sustentáculo
de uma identidade brasileira perante outras culturas (8). Em segundo,
reatualiza o tema da divisão intelectual do trabalho entre o
primeiro e o terceiro mundo, entre os que pensam e os que sensorializam
o real, o que aliás corresponde à concepção
emotiva da música na cultura ocidental. Nesta lógica,
a MB é o sedativo romântico para o primeiro mundo da razão:
reservatório de sensibilidades promovidas pelo melos, pelos ritmos
percussivo-sincopados, pelo swing do corpo. Equacionando-se com os termos
de espacialidade/musicalidade propostos no próprio sistema discursivo
da mediascape:
CULTURA
|"Up the Equator= COLD, corporate formulas of music biz" =
RAZÃO|
|"Down the Equator = HOT, steamy musicality" = INSTINTO|
NATUREZA
Esta linha de raciocínio mantém estreita associação
com os investimentos ideológicos do paradigma da modernidade
em que o estado-nação está solidamente constituído
pela unidade da raça/língua, história, costumes,
tradição e território. Portanto, no sistema discursivo
da mídia etnicidade/corporealidade/musicalidade são termos
inseparáveis da formulação dos diacríticos
da identidade nacional:
The same rich ethnic cocktail that formed Brazilian society from African,
European and Indian ingredients underlies a national genius for music,
and a bewildering variety of rhythms, melodies, and regional genres.
(Cleary, 1994: 557 )
Over the last five centuries, Portuguese, African, and - to a lesser
extent - Amerindian traditions, instruments, harmonies, dances, rhythms,
and other musical elements have been mixing together, altering old styles
and creating new forms of music (McGowan & Pessanha 1991:25)
Quero salientar, no entanto, que estas representações
não são privilégio do imaginário social
do mass media primeiro-mundista. Dois nomes de reconhecida idoneidade
na crítica e produção musical no Brasil, em artigos
publicados no UNESCO Courier, recontam a saga da MB nos mesmos termos
que seus colegas americanos do norte, reproduzindo mais uma vez o rebatido
mito das três raças formadoras da cultura brasileira (9)
para uma platéia internacional:
Brazil was born singing. Flowing through the veins of this 'subcontinent'
is the lifeblood of a mingled ethnic heritage [Indians, Blacks, Portuguese]
( Souza 1986).
This racial mixing [Indians, Africans, Portuguese] has produced one
of the richest and most original of the planet's musical heritages (Aratanha
1991)
Por outro lado, a tese do "renovar conservando" sempre presente
nos debates travados sobre os destinos da MB, incorpora-se ao discurso
da mídia como uma questão de sobrevivência cultural
na lógica da circulação das músicas transnacionais:
como modernizar a MB sem perder as suas qualidades distintivas, a sua
identidade brasileira? pergunta o crítico Seligman (10). A questão
só faz sentido em um contexto em que as representações
sobre a MB são conceptualizadas em termos de fidelidade às
raízes, ao vernáculo musical.
One of the many marvels of Brazilian music has been the ability to incorporate
so many outside forms and yet maintain its own identity ( Seligman 1990
)
... Brazilian music has long since burst its national boundaries while
remaining true to its roots. (Cleary 1994: 557)
A antítese entre o autêntico e o espúrio torna-se
explícita nos argumentos sobre a invasão do rock internacional
no mercado brasileiro, tratado como índice da degradação
musical, de ameaça dos valores estéticos simbolizados
pela verdadeira MB. O tema do atraso, do descompasso cultural/tecnológico
(a hierarquização modernista que divide o primeiro do
terceiro mundo pela tecnologia, progresso e prosperidade econômica)
permeia as entrelinhas das referências (aliás mal-informadas)
sobre a criação roqueira, tratada como versões
mal-versadas, cópias subdesenvolvidas do "autêntico"
rock americano e inglês. Esta linha de raciocínio está
presente por exemplo na versão oferecida por Margolis (1989)
da sigla MPB ( música popular brasileira), desdobrada como a
música de compositores e intérpretes como Milton Nascimento,
Caetano Veloso, Gilberto Gil capazes de absorver uma variedade de gêneros
musicais transnacionais e continuarem brasileiros, logo assim chamada
to distinguish it from the cosmopolitan kitsch cranked out by the country's
sadly growing glut of faceless local rock bands.
Outra crítica descreve os efeitos da globalização
musical desencadeados pela importação do rock no país:
National boundaries have dissolved into a panglobal pop that, at its
worst, jettisons individuality for the lowest common denominator. (Seligman
1990)
O antídoto para uma suposta estagnação ou assimilacionismo
sem limites da MB, é a renovação musical localizada
no nordeste do país, sobretudo na explosion of creativity from
Bahia. Para o músico e produtor americano, Arto Lindsay, criado
na capital daquele estado, e elemento freqüente de ligação
entre músicos brasileiros e a cena musical americana,
In Bahia and the north you find the purest African rhythms, some of
the most innovative in Brazil (citado por Gomez, 1989).
Opinião corroborada nas declarações do músico
David Byrne:
Bahia may be to Brazil what New Orleans was as the birthplace of jazz
-- a source of musical ideas that are later refined into new styles
(idem)
Observações igualmente partilhadas em outros textos que
enfatizam a idéia do pan-africanismo musical através das
afinidades da herança africana na Bahia com as músicas
do Caribe, uma aliança musical que ".... injected new life
into the Brazilian music scene" (Seligman 1990); ou ainda:
There is a Brazilian rock scene, centred around São Paulo, but
it's very tame and derivative compared to that of London or New York.
Brazil has been much more successful absorbing non-rock influences from
abroad as the music scene in Salvador shows, and we can look forward
to more productive plundering of Caribbean and African music in the
years to come (Cleary 1994: 567)
A MB, embora reconhecida em sua variedade e diversidade, constrói-se
no singular pela reiteração do samba como matriz geradora,
alma mater da MB que prolonga-se nas contra-correntes da Bossa Nova
e da Tropicália e nas suas permutacões com outros gêneros:
The only constant is samba, which like the blues in the US underlies
most of Brazil's pop idioms. (Santoro: 1991)
Compartilhando este espaço, graças à sua penetração
no circuito da World Music e das diásporas das músicas
afro-americanas, a música afro-baiana, fruto da região
"mais africana" do país e berço do próprio
samba, é o exemplo que confirma a norma e reforça a tese
da identidade comum de toda as músicas brasileiras.
Este sistema discursivo ganha credibilidade na medida em que seus autores
estão escudados em declarações tanto dos próprios
criadores do discurso musical, quanto dos criadores do discurso sobre
música, isto, é os músicos, instrumentistas, críticos
e estudiosos brasileiros que reiteram a primordialidade do samba na
cultura musical do país, a tradição musical formada
pelas três raças e o essencialismo do folk como fundamentos
da riqueza e singularidade da cultura musical da nação.
Quando o cantor e compositor Caetano Veloso foi perguntado sobre o que
confere singularidade a MB, a resposta foi "o samba"; anteriormente
a mesma afirmação fora feita pelo percussionista carioca
Naná Vasconcellos, baseado em NYC há vários anos:
Brazil is the only country that has samba (cit. por Shoshkes 1983).
Anos mais tarde, o mesmo musicista reitera a sua posição:
Music now is like the current popular hairstyle.... Nothing lasts, and
there is no focus because technology often creates the music. But Brazilian
music is rooted in a tradition (Naná Vasconcellos citado por
Margolis 1989)
A primordialidade do samba no discurso da e sobre a música brasileira
é indicial do seu poder de consenso e eficácia simbólica
na objetivação e subjetivação da realidade
brasileira além fronteiras, de representar uma identidade homogênea
para toda a nação:
..... millions of people make, sing, dance or just enjoy samba. Its
importance in the maintenance of a relative social peace in Brazil is
hard to measure, but it is clear. One doens't need to wait for Carnaval
to see how samba brings people from all social classes and races together
and keeps them in harmony (McGowan & Pessanha 1991: 51 ).
Estas ocorrências intertextuais dos mesmos topoi sugere que as
semânticas locais de identidade, musicalidade, autenticidade e
as suas traduções em outra cultura ( no caso as representações
da MB pela mídia nos EUA) circulam com certo grau de monopólio,
pois a disponibilidade de contra-discursos para interagirem na mediascape
é escassa do ponto de vista acadêmico e indocumentada do
ponto de vista da experiência social dos consumidores. Se tais
narrativas podem ser entendidas como paradigmáticas do imaginário
social do primeiro sobre o terceiro mundo, seus referenciais mais próximos
podem ser arqueologicamente traçados nas próprias análises
produzidas pela cultura acadêmica: a idéia de uma unidade
cultural, de uma identidade nacional fixa [contradizendo a fluidez do
conceito de identidade e das tendências setorializadas de criação
de identidades na atual conjuntura da sociedade brasileira (11)], de
imagens sintetizadoras das diferenças sociais, culturais, étnicas,
cristalizadas em um passado idealizado, reproduzem conceitos, informações,
ideologias e imagens literárias senão totalmente criados,
pelo menos acolhidos pelo establishment acadêmico.
Neste sentido é preciso pensar o papel da musicologia brasileira
que já foi pródiga no passado (e de certo modo continua
no presente) em sustentar o modelo de formação da música
brasileira assentada em uma mescla hierárquica e assimétrica
da cultura musical do colonizador europeu sobre a do africano e indígena.
Autores como Luciano Gallet, Mário de Andrade, Oneyda Alvarenga,
Renato Almeida, Arthur Ramos passaram consciente ou inconscientemente
para os seus estudos os preconceitos advindos das teorias raciais do
século XIX, que informaram grande parte da pensamento humanístico
no Brasil pelo menos até os anos 1940. Sobejamente citados, estes
estudos conectam argumentos de ordem evolucionista -- o suposto primitivismo
dos povos africanos ou de origem afro -- para explicar o entendimento
das música africanas calcado só na sua dimensão
rítmico-percussiva e do seu apelo corporal imediato (12). Nas
entrelinhas queriam expressar a "incapacidade" destas culturas
em alcançar os padrões intelectuais do ocidente europeu,
de comunicarem-se pela linguagem da razão; a comunicação
gestual e musical intensa na cultura afro-brasileira funcionaria como
mecanismo de compensação desta "incapacidade".
O papel do grupo Olodum como índice da cultura afro-brasileira
no trabalho de Paul Simon (no álbum The Rhythm of the Saints
/1990), as colaborações entre a cantora baiana Margareth
Menezes e David Byrne, ou a introdução mais recente de
outra cantora baiana, Daniela Mercury, no mercado internacional, reiteram
o imaginário construído dentro e fora do Brasil, sobre
a africanidade da música brasileira, objetivada em termos similares
aos que se encontram presentes na literatura acadêmica. Mas como
adverte Feld (1994) na sua análise sobre as mediações
intervenientes nas agendas de representação cultural da
world music, as forças sociais envolvidas na atual conjuntura
da criação/consumo de música popular operam em
um espaço de agenciamento e negociação de múltiplos
interesses, demandando cautela nas interpretações categóricas.
Criado o consenso do que é relevante musicalmente pela reificação
de autores, gêneros musicais, histórias, memórias,
mitos, a exclusão deste circuito discursivo neutraliza o interesse
musical de tudo que não esteja nele previsto, pois não
é oferecido como opção. A fragmentação
a nível da produção e consumo que caracteriza hoje
todos os grandes mercados musicais, como é o caso do Brasil (13),
está ausente da cena pois contradiz a essência da ideologia
da cultura nacional que é a de unificar o todo pela tradição,
o autêntico, o puro, as raízes, ou seja, aquilo que a crítica
antropológica denomina de modelo do exótico, ou a reificação
do tema herderiano da integração e unidade do estado-nação
pelo folclore, pelo Volk. Embora os autores resenhados sejam quase unânimes
em apontar a diversidade de músicas regionais do país,
esta diversidade é um enunciado sem referentes no discurso; naqueles
casos em que a referencialidade se consuma, ela aponta para o reservatório
folclórico musical do Nordeste, o que nada mais é do que
a confirmação da tese do exótico-musical. Por exemplo,
na passagem abaixo em que "Africa+Bahia= autenticidade musical":
The return to sources is most pronounced ... in Bahia, where so much
of Brazilian music has had its origins. Bahia has been the home of Black
culture ever since the arrival of the first Bantu slaves; and even though
its racial background remains more authentic -- as does its music, which
retains close ties to the religious cults originating in Angola, Nigeria,
Senegal or Guinea-Bissau ( Aratanha 1986).
Para as platéias do primeiro mundo, a marca do autêntico
na MB é o selo de garantia de qualidade do produto; a autoridade
dos mediadores culturais (os "cultural brokers" da mídia)
forma e informa aos consumidores os seus direitos auditivos (14). O
que de certo modo está coerente com a lógica operacional
da mediascape. Apesar da aparente naturalidade na associação
entre a MB presente no livre mercado das trocas musicais trasnacionais
e a MB criada e consumida pelo estado-nação Brasil, a
visibilidade dos repertórios musicais acontece através
de mecanismos de controle sobre meios de produção, capital,
marketing altamente seletivos (15). A representação monolítica
tem a sua lógica na intensificação da visibilidade
sobre poucos para uma maior audiência possível, o que caracteriza
o modus operandi das grandes gravadoras multinacionais na atual conjuntura
do mercado da música pop (cf Feld, 1994: fewer [stars] means
more [profit] in the music industry).
Do ponto de vista acadêmico, o paradigma da modernidade na crítica
musical, reificador do ideal de nação, do essencialismo
e naturalidade na idéia de uma identidade musical coletiva, exaure-se
nas complicações envolvidas em representar uma pletora
de músicas e agentes sociais, com história e práticas
culturais distintas, através de uma rubrica única de "identidade":
música brasileira. As análises interdisciplinares dos
processos transculturais, transnacionais, das globalizações,
das diásporas, têm propugnado a adoção de
esquemas interpretativos sensíveis à pluralidade, aos
significados aduzidos pelo posicionamento ativo e reativo dos agentes
sociais no seu cotidiano, pela distância espacial e temporal da
experiência social geradora de repertórios simbólicos
e a sua distribuição e consumo (entendidos como prática
social). Neste sentido, se reconhecemos que a análise etnomusicológica
das músicas nacionais e seus processos de globalização
pode traçar os deslocamentos das práticas musicais e seus
significados criados em um dado setting cultural e sua recriação
em outros, é preciso transcender a idealização
desta posição pelo seu uso efetivo como contraponto ao
realismo das análises congeladas no tempo e espaço, colocando
em pauta versões menos absolutizantes dos processos de criação
musical; em síntese estratégias analíticas condizentes
com a fluidez e efemeridade da noção de evento/fato/dado.
Penso que os exemplos aqui selecionados ressaltam os deslocamentos de
significado existentes entre as reificações da MB, sobretudo
o samba, no discurso sobre a música e no discurso da própria
música (basta lembrar a amplitude semântica da palavra
samba no discurso musical -- as suas múltiplas combinações,
permutações e reinterpretações regionais)
e as possibilidades em aberto para representações menos
categóricas das expressões musicais que constroem parte
significativa do cotidiano na sociedade brasileira. Repensar criticamente
a historicidade de certas interpretações tão impregnadas
no senso comum e com implicações políticas em várias
direções requer habilidade em dialogar dentro e fora da
academia. No Brasil, esta tarefa depende da ampliação
de mão de obra acadêmica qualificada para produzir contra-discursos
que possam tematizar a música não só pelo seu valor
afetivo, emocional, mas também como mapa cognitivo da cultura
e da vida social.
NOTAS
(1). Sigo aqui o conceito de representação
de Durkheim retrabalhado por Bourdieu. Na prática social, percepções
objetivas, como língua, sotaque, música,são objeto
de representações mentgais, i.e. atos de percepção
e apreciação de conhecimento e reconhecimento onde os
agentes investeem sues interesses e pressupostos, além de representações
investidas nos objetos (emblemas, bandeiras, insignias, etc) ou em atos,
constituindo assim estratégias interessadas de man ipulação
simbólica que visam a determinar a representação
(mental) que os outros podem fazer destas propiedades e de seus portadores
(Bourdieu 1980: 65)
(2). A amostra está baseada em meia centena de
artigos publicados por jornalistas, críticos, produtores musicais
a partir de 1983 na chamada 'popular press' musical (Billboard, Down
Beat, The Beat, Stereo Review, etc), e em jornais de grande circulação
que apresentam uma longa carreira eestablecida na crítica e comentário
m usical como The New York Times e o Village Voice. Também incluí
nesta amostra, artigos e livros de divulgação sobre MB
publicados por autores da popular press (McGowan & Pessanha 1990;
Krich 1993; Cleary 1994)
(3). Esta metáfora remete à tradução
inglesa que o termo Bossa Nova recebeu nos EU no começo dos anos
60, " Brazilian wave."
(4). Curiosamente Margolis no seu estudo etnográfico
sobre imigrantes brasileiros em NYC observa que a sua quase-invisibilidades
na sociedade americana contrapõe-se a uma verdadeira moda por
coisas btrasileiras, inclusive música, como se houvesse um espontaneísmo
neste comportamento social: "The lambada vogue, the popularity
of David Byrne's and Paul Simon's Brazilian albums, the concert tours
of Brazilian pop stars, the new restaurants with Brazilian themes, and
the packed bar scene at the Coffee Shop, a New York eatery that serves
Brazilian food...have led New York Magazine [Sept. 1990] to call Brazil
'the nation du jour among New York style-setters.'"
(5). Tome-se como exemplo o próprio mercado discográfico
de MB nos EUA. Em 1988, a gravadora CBS laçou três albuns
de artistas brasilerios (Simone, Milton Nascimento, Djavan) na expectativa
de vender un milhão de cópias de cada (Variety 1988).
Esta cifra supera não só o tamanho do enclave brasileiro
nos EU, demonstrando a amplitude de consumo da MB para além dele,
como também supera a marca do que estes artistas normalmente
vendem no Brasil. Destes lançamentos, o album de Simone foi o
único a não atingir a cifra esperada.
(6). Margolis confirma algumas observações
per mim acumuladas ao longo de sete anos de residência nos EU
a compartilhadas com outros colegas que lá viveram. Nos shows
de superstars brasileiros nos EUA, a maioria da platéia é
composta per nacionais, establecidos ou itinerantes. Margolis registra
uma performance de Milton Nascimento em NYC [1990] em que 60% da audiência
era de brasileiros (1994: 183; 202) Assisti aos shoes deste artista
em Austin, TX em 1985/88, em condições similares. A apresentação
de Ivan Lins em Seattle, 1994 e o recente concerto de artistas brasileiros
e americanos en NYC para homenagear o compositor Tom Jobim (18 abril
1995) reiteram o fato.Nos conjuntos de batucada, nas aulas de capoeira,
nas escolas de samba organizadas em NYC, Margolis anota que estas atividades
atraem mais aficionados americanos perlo Brasil do que brasileiros (Margolis
1994: 197; 210). Por outro lado, registra a massiva presença
de brasileiros em restaurantes e clubes de Manhattan e arredores que
ofrecem música brasileira ao vivo, para dançar: lambada,
samba, forro, rock, afoxé, bossa nova, batucada de carnaval (1994:
180;1820 Estes dados são indicativos de que há níveos
distintos de uso e consumo da MB nos EU, mas só um trabalho etnográfico
focalizado na questão poderá desvelar as suas particularidades.
(7) Ver por exemplo Krich (1990 & 1993) em que o
autor descreve o Brasil como o país do turismo musical.
(8) Sobre as relações entre folclore e
criação da identidade nacional no Brasil ver Ortiz (1989).
(9) Sobre a desmontagem deste mito ver as análises
de Roberto da Matta (1983) e Ortiz (1985).
(10) Seligman produziu algumas das antologias de música
brasileira que circulam nos EU, para gravadoras como Polygram e Rykodisc.
(11) Ver por exemplo a discussão conduzida por
Stuart Hall: "...instead of thinking identity as an already accomplished
fact, which new cultural practices then represent, we should think,
instead, of identity as a 'production' which is never complete, always
in process, and always constituted
within, not outside, representation (1990: 222). A instigante análise
de G. Yúdice sobre música e
cultura jovem no RJ mostra o estado de ruptura política/cultural/racial
na identidade brasileira contemporánea; enquanto o samba e os
setores a ele associados ainda apostam na idéia do Brasil-nação,
da identidade coletiva, no Rio de Janeiro setores jovens marginalizados
se itlizam do Funk, do rap, de uma bricolagem musical transnacional,
para criar uma identidade local e imediata, antitética à
cultura do consenso (1994: 197). N o meu estudo sobre o movimento de
música naatgivista no sul do Brasil, propus como através
dele setores de classe média criaram um campo de poder para veicular
uma identodade regional marcada pela sua oposição ao roque
nacional e ao samba.
(12). Em outro texto analiso com mais detalhes esta
questão (Lucas 1988).
(13). Pela performance do ano 1994, o Brasil estaria
coupando o 9º lugar na vendagem mundial de discos (Paiano 1995).
(14) Convém não esquecer a abrangência
destes mediadores. Muitos dos jornalistas que assinam as colunas musicais
na imprensa são também autores das notas que acompanham
os discos, material de publicidade e textos veiculados nos programas
de rádio.
(15) O paradoxo dos subornos à fantasia ofrecidos
pelo marketing e discurso sobre as músicas nacionais globalizadas
'qua' turismo musical para as platéias do primeiro mundo, pode
ser percebido no relato de Krich (1990) sobre sua expedição
musical ao Brasil : "Unfortunately the realm you enter through
listening to Brazilian music is quite a bit more idyllic than the country
it can lead you find...There's bound to be disapointment in being a
music tourist because music often takes you to places that aren't found
on any map. But perhaps that's the whole point. If the Brazilian beat
you've heard in your stereo sounds much the same in situ - rising transcendent
above gang warfare, child labor, racism, hyperinflation - that only
makes it all the more miraculous."
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in the Global Cultural. Economy. Public Culture 2 (2) Spring 1990.
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and the Cultural Imperialism Debate. Socialist Review 20 (3): 63-80.1990
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- Margolis, Maxine L. Little
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Princeton University Press, 1994
- Matta, Roberto da. Relativizando.
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- Ortiz, Renato. Cultura
brasileira e identidade nacional. São Paulo: Brasiliense,1985
- Paiano, Enor. Soaring CD Sales spur Brazilian
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of Brazil: an explosion of creativity from Rio to Bahia. Stereo Review,
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